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Domingo, 27 Março 2016 00:00

Petróleo, Sangue e Lágrimas

Na ressaca de mais um hediondo atentado, escrever sobre o terror puro configura sensível desafio.

 

Na sociedade global, hipermediatizada e mergulhada no individualismo voraz e na vertiginosa espuma dos dias, em que vivemos, já quase tudo foi dito e escrito. Cabe-nos com sensibilidade e espírito crítico, colocar questões oportunamente dolorosas e politicamente inoportunas.

Muito haveria para escrever sobre as responsabilidades históricas do Ocidente na estável instabilidade que há séculos vigora no Médio Oriente, perpetuando o interesse de alguns e perigando a paz de todos.

Apenas a título de exemplo, no inefável acordo Sykes-Picot, bem como nas recentes guerras do Afeganistão e Iraque ou no entusiamo precipitado da Primavera Árabe sobressaem três denominadores comuns: a leviana ausência de humanismo nas soluções geopolíticas encontradas, o imenso e fausto mercado da guerra e, acima de tudo o mais, o negro vil petróleo.

Muito para além das vidas que, a cobro de um pretenso desígnio religioso, o Daesh ceifa periodicamente, com particular sadismo, cabe-nos questionar quanto do seu modo de vida está o Ocidente disponível a abdicar e se essas cedências constituem eficaz resposta a esta problemática.

Nestes tempos cada vez menos excecionais - e que configuram terreno fértil para o nacional populismo, para a descriminação étnica e religiosa e para o belicismo acéfalo – somos desafiados enquanto civilização a encontrar respostas inovadoras. Neste sentido, o desmantelar da liberdade de circulação de pessoas e bens configuraria um erro trágico e uma cedência inútil ao medo, tal como colocar “as botas verdes no terreno” se traduziria num equívoco de consequências imprevisíveis, que apenas alimentaria mais o fogo fátuo da maldade.

A comunidade internacional está indelevelmente convocada para uma reflexão mais ampla. Por um lado, se o Daesh se financia através do petróleo, que em teoria não poderia colocar no mercado, é indispensável recolocar duas palavras em cima da mesa: Arábia Saudita. Por outro, chegou o momento de com respeito pelas liberdades editoriais regulamentar a divulgação massiva de informação relativa a estes atos como forma de dissuadir algumas práticas terroristas.

O caminho recomendado é o da diplomacia em detrimento do securitismo exacerbado. Não a que ao longo da história se norteou pelos interesses particulares de cada nação, mas sim a diplomacia consciente da responsabilidade que detém para com a humanidade, que saiba interpretar as forças regionais e com elas desenhar um caminho, que não sendo fácil, possa ser eficaz.

Até lá, limitar-nos-emos a verter lágrimas de sangue no mar sombrio e infindável da comoção generalizada.

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